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Cheguei cedo para abrir as portas da loja onde trabalho. Quase sempre há alguém dormindo por ali e, como de costume, faço silêncio para não acordar a pessoa. Acredito que seja essa a postura educada que se deve tomar, mas sei também que não faz a menor diferença, afinal, a pessoa está dormindo em pleno centro de Ceilândia, há mais carros buzinando ali do que no engarrafamento de São Paulo.
Faço silêncio, mas não me sobra coragem para retirar a dorminhoca dali, a figura do mendigo me assusta e nem ao menos sei por que, ela representa algum perigo que ninguém sabe explicar. O mendigo não é bandido, mas passa longe dos padrões de beleza e do banho de perfume que tomamos todos os dias, talvez esteja por aí a bendita razão de nós termos medo deles, ou seria nojo? Nojo parece uma palavra forte nesse caso, mas não vejo outra palavra que denomine o motivo para nenhum dos empregados da loja ter coragem de pedir para a mendicante sair da porta do estabelecimento.
A velha mendiga, que devia ter entre 50 e 60 anos, estava deitada em uma cadeira de rodas antiga, sua perna tinha pinos com cicatrizes e ferimentos infeccionados, sua pele estava muito queimada do sol, suas unhas estavam cheias de barro, o cheiro dela era forte e havia um rapaz, com características não muito diferentes, cuidando dela. A gerente da loja chegou e foi a única que com muito carinho, teve a coragem, ou melhor, não teve nojo, de ajudar a velha a dobrar seu cobertor sujo que estava pendurado de mau jeito na sua cadeira de rodas, coragem esta que nem o rapaz que a acompanhava tivera.
A velha, agradecida, contou à gerente que era uma pessoa saudável, mas que havia sido atropelada recentemente. Eu creio que assim como se atropela um gato e foge, o atropelador o fez. Não há espaço para mendigos no mundo, eles não são perigosos, mas merecem no máximo duas moedas da nossa atenção.
Os gritos da velha aumentavam a cada minuto, os ferimentos inflamados e sujos, pareciam matar a mulher. Os bombeiros chegaram e disseram que era falta de limpeza. Brigando, o bombeiro avisou que se ela não passasse a lavar as feridas, ele teria que buscá-la todos os dias no Centro da Ceilândia. Aquela cena me assustou, como a velha lavaria as feridas morando na rua? O bombeiro percebeu que sua reação estava fazendo juntar gente a sua volta para assistir à cena e achou melhor levá-la na ambulância.
No outro dia, perto da lotérica, no mesmo Centro de Ceilândia, uma das funcionárias da nossa loja viu a velha mendiga pedindo esmola e sendo ignorada com sua perna cheia de ferimentos e pinos. Mesmo tendo sido levada ao hospital, os gritos de dor continuavam. Nada mudou: a dor, a rua, o medo, tudo continua a mesma coisa no Centro dos horrores Ceilandenses.
Faço silêncio, mas não me sobra coragem para retirar a dorminhoca dali, a figura do mendigo me assusta e nem ao menos sei por que, ela representa algum perigo que ninguém sabe explicar. O mendigo não é bandido, mas passa longe dos padrões de beleza e do banho de perfume que tomamos todos os dias, talvez esteja por aí a bendita razão de nós termos medo deles, ou seria nojo? Nojo parece uma palavra forte nesse caso, mas não vejo outra palavra que denomine o motivo para nenhum dos empregados da loja ter coragem de pedir para a mendicante sair da porta do estabelecimento.
A velha mendiga, que devia ter entre 50 e 60 anos, estava deitada em uma cadeira de rodas antiga, sua perna tinha pinos com cicatrizes e ferimentos infeccionados, sua pele estava muito queimada do sol, suas unhas estavam cheias de barro, o cheiro dela era forte e havia um rapaz, com características não muito diferentes, cuidando dela. A gerente da loja chegou e foi a única que com muito carinho, teve a coragem, ou melhor, não teve nojo, de ajudar a velha a dobrar seu cobertor sujo que estava pendurado de mau jeito na sua cadeira de rodas, coragem esta que nem o rapaz que a acompanhava tivera.
A velha, agradecida, contou à gerente que era uma pessoa saudável, mas que havia sido atropelada recentemente. Eu creio que assim como se atropela um gato e foge, o atropelador o fez. Não há espaço para mendigos no mundo, eles não são perigosos, mas merecem no máximo duas moedas da nossa atenção.
Os gritos da velha aumentavam a cada minuto, os ferimentos inflamados e sujos, pareciam matar a mulher. Os bombeiros chegaram e disseram que era falta de limpeza. Brigando, o bombeiro avisou que se ela não passasse a lavar as feridas, ele teria que buscá-la todos os dias no Centro da Ceilândia. Aquela cena me assustou, como a velha lavaria as feridas morando na rua? O bombeiro percebeu que sua reação estava fazendo juntar gente a sua volta para assistir à cena e achou melhor levá-la na ambulância.
No outro dia, perto da lotérica, no mesmo Centro de Ceilândia, uma das funcionárias da nossa loja viu a velha mendiga pedindo esmola e sendo ignorada com sua perna cheia de ferimentos e pinos. Mesmo tendo sido levada ao hospital, os gritos de dor continuavam. Nada mudou: a dor, a rua, o medo, tudo continua a mesma coisa no Centro dos horrores Ceilandenses.
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Myrcia Hessen

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