domingo, 2 de novembro de 2008

Centro dos Horrores Ceilandenses



Cheguei cedo para abrir as portas da loja onde trabalho. Quase sempre há alguém dormindo por ali e, como de costume, faço silêncio para não acordar a pessoa. Acredito que seja essa a postura educada que se deve tomar, mas sei também que não faz a menor diferença, afinal, a pessoa está dormindo em pleno centro de Ceilândia, há mais carros buzinando ali do que no engarrafamento de São Paulo.
Faço silêncio, mas não me sobra coragem para retirar a dorminhoca dali, a figura do mendigo me assusta e nem ao menos sei por que, ela representa algum perigo que ninguém sabe explicar. O mendigo não é bandido, mas passa longe dos padrões de beleza e do banho de perfume que tomamos todos os dias, talvez esteja por aí a bendita razão de nós termos medo deles, ou seria nojo? Nojo parece uma palavra forte nesse caso, mas não vejo outra palavra que denomine o motivo para nenhum dos empregados da loja ter coragem de pedir para a mendicante sair da porta do estabelecimento.
A velha mendiga, que devia ter entre 50 e 60 anos, estava deitada em uma cadeira de rodas antiga, sua perna tinha pinos com cicatrizes e ferimentos infeccionados, sua pele estava muito queimada do sol, suas unhas estavam cheias de barro, o cheiro dela era forte e havia um rapaz, com características não muito diferentes, cuidando dela. A gerente da loja chegou e foi a única que com muito carinho, teve a coragem, ou melhor, não teve nojo, de ajudar a velha a dobrar seu cobertor sujo que estava pendurado de mau jeito na sua cadeira de rodas, coragem esta que nem o rapaz que a acompanhava tivera.
A velha, agradecida, contou à gerente que era uma pessoa saudável, mas que havia sido atropelada recentemente. Eu creio que assim como se atropela um gato e foge, o atropelador o fez. Não há espaço para mendigos no mundo, eles não são perigosos, mas merecem no máximo duas moedas da nossa atenção.
Os gritos da velha aumentavam a cada minuto, os ferimentos inflamados e sujos, pareciam matar a mulher. Os bombeiros chegaram e disseram que era falta de limpeza. Brigando, o bombeiro avisou que se ela não passasse a lavar as feridas, ele teria que buscá-la todos os dias no Centro da Ceilândia. Aquela cena me assustou, como a velha lavaria as feridas morando na rua? O bombeiro percebeu que sua reação estava fazendo juntar gente a sua volta para assistir à cena e achou melhor levá-la na ambulância.
No outro dia, perto da lotérica, no mesmo Centro de Ceilândia, uma das funcionárias da nossa loja viu a velha mendiga pedindo esmola e sendo ignorada com sua perna cheia de ferimentos e pinos. Mesmo tendo sido levada ao hospital, os gritos de dor continuavam. Nada mudou: a dor, a rua, o medo, tudo continua a mesma coisa no Centro dos horrores Ceilandenses.
____________
Myrcia Hessen

Nenhum comentário:

Postar um comentário